
A LÍNGUA DA GALIZA
As três bandas verticais
Será conveniente, antes de introduzirmo-nos no estudo sociolingüístico do galego, situarmo-lo entre o conjunto das línguas neolatinas com que está directamente aparentado e, em concreto, entre as da Península Ibérica, que som conhecidas polo nome de Iberorromances.
Do ponto de vista lingüístico, a Península pode ser dividida em três grandes blocos verticais, segundo nos dim os estudos filológicos do ámbito romance:
Quanto à identificaçom genética do galego, cumpre recordar que tanto os lingüistas, como a tradiçom galeguista que parte do século XVIII, som praticamente unánimes ao afirmarem a unidade lingüística galego-portuguesa.
«Pol-o idioma -e un idioma é unha civilización- a Penínsua Ibérica divídese en tres bandas verticás: a banda galego portuguesa, a banda castelán e a banda catalana».Este breve texto de Vicente Risco resume a ideia, desenvolvida por outras personalidades do nosso nacionalismo histórico: o Padre Feijoo, António de la Iglésia, M. Murguia, Joám Vicente Biqueira, Vilar Ponte, Castelao, Carvalho Calero,...
A história medieval das três grandes bandas aludidas por Risco tem características comuns que a seguir resumimos. Com efeito, as três línguas (catalám, castelhano e galego) nascêrom no norte e estendêrom-se para o sul levadas polos repovoadores das terras conquistadas aos mussulmanos, dando lugar às variantes valenciana, andaluza e portuguesa de cada umha.
O galego, formado por volta do século IX, começa a sua história escrita no século XIII, acolhendo umha vasta produçom em textos nom literários e umha riquíssima literatura lírica até o XIV, o que o leva a ser língua de uso internacional nesse ámbito de criaçom.
No entanto, a história lingüística das três «bandas verticás» diverge como conseqüência do caminho específico de cada umha.
O catalám mantém a sua normalidade enquanto o seu território nom cai sob o poder castelhano, e ainda no período de maior domínio espanhol, nom deixará de ter produçom escrita, o que explica a conservaçom das grafias patrimoniais na base da escrita actual. Contudo, nem faltárom entre os séculos XVII e XIX os partidários de adoptar grafias espanholizantes como o <ñ>. Afinal, a escrita histórica serviu de alicerce das Normes Ortográfiques de 1913, e da relativa concórdia actual neste importante aspecto.
O castelhano converte-se em idioma-estandarte do Reino de Castela na sua política expansionista na península e, posteriormente, em boa parte do mundo, mercê da conquista ultramarina. O centro político acha-se no norte (Valhadolid primeiro e Madrid depois), o que terá o seu reflexo no estándar, construído desde a corte primitiva e mantido após a deslocaçom a Madrid (isto explica que hoje nom coincida exactamente com nengum falar geograficamente localizado).
Na banda ocidental, a pouca fortuna histórica da Galiza levou-na a sofrer já desde o século XIV os efeitos da expansom castelhana, confirmada no século XV polos Reis Católicos e a sua Doma y Castración del Reino de Galicia. Em termos lingüísticos, isto supujo a reduçom do galego a língua só oral e só popular, quer dizer, afastada dos usos formais e escritos ao nom contar com umha classe dirigente autóctone que o figesse língua de um estado galego moderno.
A inexistência, a partir do século XIX, de umha burguesia autóctone que figesse seu o uso do idioma do país empeceu a extensom da consciência lingüística e da necessidade de recuperá-lo. Isto explica o atraso galego a respeito da Catalunha, onde sim surgiu essa classe dirigente autóctone, defensora do catalám, que servindo de referência no comportamento social, favoreceu a autoestima lingüística do povo.
No sul, um pedaço da Galiza Bracarense atingiu a prezada independência, dando ao galego a categoria de língua do novo estado, cuja capital acabará por estabelecer-se em Lisboa. Este facto determinará o peso do galego lusitano (do Portugal centro-meridional) na criaçom do estándar português.
Porém, a unidade estrutural do idioma galego-português
mantém-se, de forma similar ao castelhano-andaluz e ao
catalám-valenciano. Contudo, a importáncia das fronteiras
políticas e da sua projecçom ideológica sobre
os factos lingüísticos demonstra-se na posta em dúvida
da unidade catalano-valenciana e galego-portuguesa, enquanto ninguém
questiona que andaluz e castelhano formem parte de um mesmo e
prestigioso idioma, apesar de existir tanta distáncia entre
as falas do sul e do norte do território central, como
entre as do sul e norte das outras duas bandas verticais.
A territorialidade e o nome
O galego estende-se, segundo temos visto, por todo o ocidente peninsular, de Estaca de Vares a Faro, sendo língua oficial do estado português. Esta circunstáncia explica que seja mundialmente conhecida por esse nome, ainda que seja geneticamente mais rigoroso chamá-la galego. Combinando ambos os critérios, podemos denominá-la galego-português.
A nossa língua sobrevive nom só dentro dos limites fronteiriços que encerram o país numha comunidade autónoma -quatro províncias- administrativamente espanhola. Existem também comarcas galegas pertencentes às comunidades autónomas das Astúries e Castela e Leom, que conformam o que o nacionalismo galego histórico denomina A Galiza Irredenta. Os mais de setenta mil habitantes destas terras, que dérom à história da Galiza vultos da importáncia de Armando Cotarelo Valedor ou o Padre Sarmento, carecem de qualquer protecçom legal como falantes de galego-português (por nom terem, nem tenhem reconhecida a sua condiçom de galegos).
Qualquer tentativa séria de planificaçom lingüística deverá contar, logo, com estas comarcas, tam galegas como quaisquer outras da nossa naçom.
Aliás, o galego-português foi levado fora da Europa polo imperialismo português a lugares tam diversos como o Brasil, Angola, ou Timor Leste, convertendo-o num dos mais falados do mundo. Em próximos temas faremos referência à dimensom internacional do galego e as implicaçons que tal facto tem para o idioma e para nós, os falantes.